Aromatologia – Uma ciência de muitos cheiros

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Por Fabian Laszlo
Aromatólogo e empresário
Diretor da Laszlo Aromaterapia
e do Instituto Brasileiro de Aromatologia
www.laszlo.com.br
www.ibraromatologia.com.br

Desde a época do antigo Egíto, há mais de 4mil anos, que o interesse pelos óleos essenciais por parte da humanidade é grande. Nesta época, os óleos eram empregados nas mais diferentes formas, em usos cosméticos, medicinais, religiosos e até no processo de embalsamento das múmias.

No decorrer da história, por cerca de mil anos depois de Cristo, nada se sabia sobre as essências aromáticas das plantas, até que Avicena, médico e cientista Persa, descreve em um livro, no ano mil, o método da destilação.

Séculos depois na Europa, iniciam-se as primeiras destilações de plantas aromáticas, num cenário místico dentro da prática e estudo da alquimia medieval. É resgatado neste momento a concepção de que o óleo essencial era a “alma das plantas”, conceito este originário da prática da Alquimia no antigo Egito. Eles acreditavam que o óleo essencial era a máxima expressão do aprendizado e compreensão de uma entidade vegetal, que vivendo uma infinidade de situações durante sua evolução no planeta, conseguiu registrar seu aprendizado em uma complexa mistura de moléculas com informações preciosas.

De fato, quando observamos a cromatografia de um óleo essencial natural, notamos uma infinidade de picos que descrevem a presença de um número variado de componentes. Daí fica a pergunta: por que a planta produziu tamanha variedade de componentes químicos, alguns em porcentagens ínfimas de 0,1%? Foi por acaso, acidente, ignorância dela ou haveria uma razão para isso?

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Cromatografia de um óleo essencial natural mostrando mais de 100 componentes ativos.            Cromatografia de um óleo sintético fabricado em laboratório.

Em um óleo essencial, cada componente possui um efeito e está ali por uma razão estratégica. Um dado composto pode trazer informações de propriedades antibióticas, antiinflamatórias e antioxidantes. Outro está ali visando inibir uma enzima em micróbios que lhes conferiria resistência ao princípio ativo anterior. Um terceiro composto age como imunoestimulante e um quarto como repelente e inibidor da germinação de sementes de ervas daninhas. Assim, se pensarmos que um óleo essencial possui às vezes mais de uma centena de compostos com funções variadas, chegamos a encontrar num único óleo essencial mais de mil informações genéticas sendo passadas pela planta. Estas informações são dados preciosos que nosso corpo pode absorver de forma quântica (energética), espiritual e farmacológica.

Na natureza, animais e seres humanos podem se mexer e emitir sons, mas as plantas são seres imóveis e silenciosos. Precisaram encontrar outro meio para se expressar, e foi aí quando surgiu o óleo essencial, que pode ser descrito como o “verbo vegetal”, o meio através do qual as plantas falam.  Sentir o cheiro de uma aroma é como ouvir uma música, “ouvir um cheiro” com o nariz, o “canto que não é de um pássaro, mas de uma planta.

Estudos científicos já provaram que as plantas possuem receptores a moléculas aromáticas, ou seja, possuem olfato sentindo cheiro umas das outras. E, a cada mil plantas com flores (angiospermas), somente uma recebeu o dom de falar o que sente e aprendeu pelo cheiro.

Conforme as experiências que um vegetal aromático vai vivendo e o aprendizado que vai sendo firmando em seu material genético, modificações nos compostos aromáticos que ele emite vão acontecendo, acompanhando aquilo que ele aprendeu e quer expressar. É como um pássaro que durante a caminhada evolutiva modifica gradativamente seu canto. A estas mudanças químicas nos óleos essenciais de uma mesma planta, damos o nome de quimiotipo.

Plantas como o alecrim (Rosmarinus officinalis) por exemplo, possuem cerca de 5 quimiotipos principais que mudam radicalmente a utilização do seu óleo essencial dentro da aromaterapia. Considerado o óleo dos estudantes, somente o quimiotipo rico em cânfora é capaz de estimular de forma eficiente o sistema nervoso a ponto de promover um estado de alerta e atenção para o estudo. Quimiotipos com pouca cânfora, já não tem este efeito. Os que possuem verbenona passam a ser hepatoprotetores e os com cineol expectorantes.

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Depois da idade média, com o advento da farmácia e bioquímica, o estudo dos óleos essenciais atingiu um novo patamar. Eles passaram a ser vistos, não só como matérias primas para fabricar perfumes, mas também como recursos terapêuticos com grande potencial para a cura de doenças.

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​Em 1910 um homem trabalha em seu laboratório na França fazendo uma destilação num balão de vidro que explode queimando-o severamente. Este homem era o químico René-Maurice Gattefossé. Mesmo se cuidando, Gattefossé contrai uma infecção grave nos braços, ocasionada pela bactéria Clostridium perfringens, que se não tratada a tempo pode ocasionar infecção generalizada levando à morte. Ele vai então a um hospital sendo aconselhado pelo médico a enfaixar os braços queimados e a aplicar sulfas (antibióticos). O quadro se agrava e o médico diz que se dentro de poucos dias não houver melhoras, será necessária a amputação de seus braços. Gattefossé vai para casa e resolve tomar uma iniciativa por conta própria, já que os meios ortodoxos de tratamento não deram resultado. Ele tira as bandagens dos braços e começa a aplicar óleo de lavanda pura, baseado-se em experiências e estudos anteriores sobre o poder curativo dos óleos essenciais. De forma espantosa no decorrer de uma semana a infecção regride e seus braços se cicatrizam completamente sem deixar marcas: é um milagre!

Isso muda drasticamente a vida de Gattefossé, levando-o a investir tempo e atenção ao estudo conjunto com médicos sobre o poder curativo dos óleos essenciais. Em 1937, este seu trabalho culmina na publicação do 1º livro de aromaterapia do mundo que causou uma “revolução aromática” em todo o planeta.

Após a 2º Guerra mundial um grande número de cientistas na França, entre eles médicos e farmacêuticos, iniciam um trabalho de pesquisa profunda que prova definitivamente o poder que os óleos essenciais tinham na saúde e abre portas para seu uso em hospitais como o “fitoterápico de mais alta eficiência e concentração”.

Na década de 70, quando a aromaterapia chega na Inglaterra, ela é levada como a “fonte da juventude” para as esteticistas que começaram a aplicar e utilizar os óleos essenciais como um meio de harmonizar as emoções, trazer bem-estar e beleza. A idéia de uso via oral ou externo dos óleos essenciais para tratar doenças é abandonado na Inglaterra e junto o estudo científico e farmacológico dos princípios ativos das plantas. Nasce aí uma aromaterapia simplista, fácil de ser utilizada e aplicada por leigos.

Diferente da aromaterapia francesa, a inglesa não se ocupa de avaliar os quimiotipos das plantas, de entender o que elas querem passar de fato em informações  bioquímicas pelo estudo de seus princípios ativos. Daí, o emprego de um alecrim, só por ser alecrim, acaba ocasionando falhas em resultados, pois não se atina a ver se o óleo em uso possui teores de cânfora suficientes para estimular o sistema nervoso visando melhoras na concentração, de verbenona para tratar do fígado ou de cineol para cuidar da área respiratória. Esta avaliação é crucial para que a aromaterapia realmente funcione trazendo os resultados esperados. Portanto não adianta só um óleo essencial ser natural, 100% puro e até orgânico, é importante saber qual princípio ativo ele possui, descrito no rótulo pelo quimiotipo. Pior é conceber o emprego de uma essência sintética no lugar de um óleo natural, o que pode acarretar não só falta de resultados, mas até intoxicações.

Surge neste intercurso assim uma nova ciência, chamada de Aromatologia, ou o “estudo científico dos óleos essenciais”.  Esta ciência passa a se abrir para as múltiplas possibilidades de uso que os óleos essenciais possam encontrar. Como numa árvore, a aromaterapia é apenas um de seus braços focado ao estudo e aplicação terapêutica dos óleos, havendo também a possibilidade de seu uso na área da gastronomia, estética, psicologia e até no marketing.

Os empregos de óleos essenciais como recurso terapêutico são os mais diversificados. Eles funcionam bem como antibióticos naturais, cicatrizantes de feridas e queimaduras, analgésicos no alívio de dores, como antiinflamatórios poderosos, sedativos do sistema nervoso em casos de insônia ou hiperatividade, depressão e ansiedade. A vantagem de seu uso neste aspecto vem exatamente do fato de possuirem menores efeitos colaterais do que os medicamentos alopáticos e, conforme o óleo, baixo custo. Por exemplo, uma pesquisa realizada na Inglaterra com 8.058 mulheres grávidas mostrou que a utilização de óleos essenciais como a lavanda, camomila romana e sálvia esclaréia através da inalação e massagem, foram capazes de reduzir o uso de opióides anestésicos de 6% em 1990 para 0,4% em 1997 nas mulheres durante o parto. A economia resultante desta prática é enorme para o sistema de saúde público, além da redução dos riscos com a aplicação de anestesia peridural.

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O d-limoneno, um componente encontrado no óleo das cascas do limão e da laranja, apresentou em um número variado de estudos a capacidade de aumentar a síntese no corpo da enzima glutationa, um dos mais importantes antioxidantes de nosso organismo. Sabe-se que quando uma célula não é capaz de fabricar glutationa, ela não consegue se livrar de radicais livres que são formados em seu interior, e com isso esta célula pode ser destruída ou se transformar em câncer.  Com isto, óleos ricos em limoneno, geraniol, linalol e outros componentes capazes de aumentar a fabricação de glutationa nas células, têm se apresentado como drogas capazes de reduzir o avanço do câncer em fase inicial.

Além disso, parte da capacidade regeneradora e rejuvenescedora que os óleos essenciais possuem e que os faz serem utilizados em cosméticos, está associada a esta capacidade de eliminar radicais livres, que são moléculas que podem acelerar o envelhecimento, quando presentes na pele e no interior do corpo. Exemplos de óleos ricos neste efeito são o gerânio, rosa, lavanda, pau rosa, limão, laranja, entre dezenas de outros.

Em 1996 na Alemanha, cientistas testaram o efeito comparado do óleo essencial de hortelã pimenta (Mentha piperita) e do paracetamol no alívio de dores de cabeça. O emprego do óleo puro ou diluído na área das têmporas e nuca se mostrou extremamente eficaz no alívio das dores, ao ponto de poder ser empregado como substituto ao paracetamol em dores de cabeça ocasionadas por tensão nervosa. 

Em 2006 no Brasil, uma tese de mestrado provou que a oleoresina da copaíba (Copaifera reticulata), empregada por mais de 2mil anos pelos índios da Amazônia no tratamento de uma infinidade de doenças, é um poderoso antiinflamatório. Empregado na mesma dose que o diclofenado de sódio, a oleoresina de copaíba, rica em 90% de óleo essencial, foi duas vezes mais forte na desinflamação que este medicamento. Além disso, em outras estudos apresentou muito menos efeitos colaterais que o medicamento alopático.

A grande dificuldade do emprego de óleos essenciais na saúde é a falta de interesse da indústria farmacêutica em investir capital na sua pesquisa, já que por serem um recurso natural, não podem ser patenteados.

Existem atualmente pesquisas mostrando grande eficácia do uso de óleos essenciais no tratamento de piolho, sarna, candidíase, doenças de pele, desordens respiratórias, síndrome do intestino irritado, etc. Em países desenvolvidos na Europa, como a França, Bélgica e Alemanha, os óleos essenciais já são utilizados amplamente, não só por terapêutas, mas por médicos, enfermeiras e psicólogos. No Brasil isto ainda está começando a acontecer.

No campo da cosmética, pesquisas realizadas pela empresa francesa Soliance, mostrou que o óleo de mirra (Commiphra mukul) possui a capacidade de aumentar a concentração de triglicérides na pele nas áreas onde existem fissuras. Ao prencher estas fissuras, as rugas e pés de galinha tendem a desaparecer do rosto. Este efeito costuma ser visto em menos de um mês de uso do óleo puro ou diluído.

Igualmente, estudos realizados recentemente na faculdade Univali no Brasil confirmaram o emprego do óleo de cipreste no tratamento do acne. O cipreste (Cupressus sempervirens) age reduzindo a produção de oleosidade das glândulas sebáceas, desinflamando e desinfectando a pele.    

Na área da gastronomia temos o emprego dos óleos dando sabor e enriquecendo pratos. Igualmente eles entram como poderosos recursos nutracêuticos dentro da alimentação funcional, ativando enzimas nos alimentos e trabalhando em conjunto com vitaminas e minerais na recuperação da saúde. Um suco, por exemplo, de abacaxi com uma gota de óleo essencial de hortelã pimenta une a ação expectorante e de quebra do catarro proporcionada pelo mentol deste óleo e da enzima bromelina do abacaxi, o que torna perfeita esta associação no tratamento de bronquites e sinusites.

Os óleos essenciais também afetam de forma especial a área emocional do cérebro, podendo ser ferramentas úteis dentro da psicologia e psiquiatria no auxilio, conjuntamente com os tratamentos tradicionais, na recuperação de pacientes com distúrbios psíquicos.

Após absorvidos, os óleos circulam pela corrente sanguínea de forma semelhante aos neuropeptídios (moléculas de emoções produzidas pelo cérebro) e se encaixam em receptores celulares, agindo como catalizadores de mudanças dentro do metabolismo das células, representando uma influência externa sobre a rede de comunicação entre os sistemas endócrino, nervoso e imunológico.

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​Um exemplo da ação psicoaromaterapeutica pode ser visto com o óleo de camomila romana (Anthemis nobilis). Seu aroma calmante, neutraliza a agressividade e a raiva, eliminando mágoas no coração. Dissolve estados críticos e preconceituosos nas pessoas trabalhando o perdão. Conecta com a energia angelical dentro de cada ser humano despertando a alegria por viver, combatendo depressões mórbidas e a falta de esperança por algo melhor. Além disso, é útil em insônia e ansiedade.

Com relação ao marketing, o cheiro tem também um papel importante na avaliação de uma marca. Primeiro porque é algo novo e, portanto, ajuda a marca a se destacar no meio da multidão, conferindo algo que os outros não têm. No passado, algumas empresas criaram seus próprios cheiros mesmo sem se dar conta. O estudo destes casos trouxe luz a dados importantes com relação á eficácia do marketing olfativo. Estudos na França associam aromas de cedro com a marca “Crayola”, fabricante de lápis. No Brasil, lojas como Any Any utilizam logotipo aromático. Estes exemplos ajudam a mostrar como um aroma comum a uma infinidade de produtos similares automaticamente se torna logotipo aromático de uma grande marca na mente do consumidor.

Empresas aéreas também tem dado atenção para o uso dos cheiros. Criada na Inglaterra pela aromaterapeuta Danièle Ryman, a combinação de óleos essenciais regulador pós-vôo, elaborada para superar os efeitos das viagens aéreas, tem sido encontrada nos hotéis e free-shops do Terminal Internacional do Aeroporto Heathrow, em Londres. Hoje, duas companhias aéreas internacionais – Air New Zeland e Virgin Atlantic Airways – estão fornecendo para seus passageiros de primeira classe e para a classe executiva  um “kit regulador pós-vôo”. Trata-se de uma embalagem com 2 vidros de 5ml, um rotulado como “awake”- acordar e outro”asleep”- dormir, cada um contendo uma fórmula de óleos essenciais desenvolvida por Daniele Ryman.

Com toda esta gama de possibilidades, a aromatologia é uma ciência que a cada dia cresce mais chamando a atenção de estudiosos de diferentes áreas. Aprender esta ciência de forma séria e profunda é algo importante para aqueles que desejam utilizar estes poderosos recursos, os óleos essenciais, de maneira funcional, já que além de produtos sintéticos e de baixa qualidade no mercado, ainda existem cursos ruins e com pouco conteúdo.

Artigo publicado na revista Sathya

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