Sua cabeça com a cor do abacate

O frio de rachar e a neve incessante não desanimaram os mais de 20 mil cientistas de todo o planeta que discutem as últimas pesquisas sobre alimentação no encontro anual da American Society for Nutrition, que começou ontem, 28 de março, em Boston. Logo de manhã, uma das salas mais concorridas foi a das apresentações sobre carotenoides e retinoides e, entre elas, chamou a atenção a pesquisa exibida pela professora Elizabeth J. Johnson, da Tufts University, nos Estados Unidos. O tema era o … abacate, quem diria. Não, ” doctor” Johnson não choveu no molhado, repetindo aquela história de que você provavelmente já ouviu falar: a de que a gordura do fruto do abacateiro faz bem ao coração, o que, ok, é até verdade. Ela e seus colegas da Tufts estão mesmo é de olho numa tal de luteína. Sim, lembre-se, a sala estava abarrotada de gente que queria saber as novidades sobre carotenoides e retinoides. E a luteína joga nesse time.

Bem, carotenoides e retinoides são pigmentos. Então, já começam a chamar a atenção das pessoas por aí. Ora, foi-se o tempo em que os nutricionistas se debruçavam apenas sobre aquilo que o nome da própria especialidade denuncia, isto é, sobre os nutrientes. Hoje se sabe que existem outras moléculas nos vegetais que, embora não sejam, digamos, da turma clássica de proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e sais minerais, também agem sobre o nosso organismo. E esses bioativos, como andam sendo chamadas as tais moléculas, por terem vindo à luz da ciência mais recentemente, criam sempre estardalhaço em congressos da área. A luteína que colore o abacate, e que também deixa a gema do ovo amarela, amarela, por exemplo, parece importantíssima para que a nossa cabeça não falhe, especialmente com o passar dos anos.

A cientista americana falou, em entrevista a SAÚDE, sobre a escolha do objeto do seu estudo: “Sabíamos que o abacate tinha luteína, mas queríamos arriscar se ele conseguia aumentar a quantidade dessa substância no cérebro, já que ela faz tremenda diferença para o raciocínio”, disse. Sim, porque aí é que são elas. Sinto informar que há um certo sarcasmo nas pesquisas sobre alimentação e ele atende por outro nominho muito em voga neste evento científico — se você topar engolir mais um termo, já me perdoando, ele é biodisponibilidade. É fácil entender: não adianta um alimento ser cheio de alguma coisa benéfica se o corpo não consegue aproveitá-la. A gema do ovo, já citada, passa a perna no abacate em matéria da bendita luteína. Mas ela mal vai parar na nossa cabeça. Daí que…

Daí que os pesquisadores americanos apostaram na zebra do abacate, que nem tem lá doses tão generosas desse pigmento. Escolheram 20 homens e 20 mulheres, todos cinquentões, para participar do estudo. Eles não tinham nenhum problema de saúde, vale ressaltar, para botar os pinguinhos nos “is” da ciência. E toparam, claro, fazer uma série de testes de memória e raciocínio antes da experiência. Depois, metade comeu 100 gramas de abacate por dia, o que fornecia algo como míseros 3 mg da famosa luteína. A brincadeira durou seis meses. Nesse período, a outra metade dos voluntários recebeu um suplemento com 12 mg, isto é, quatro vezes mais dessa substância. Claro que o suplemento mandou para as alturas a taxa de luteína no sangue, enquanto ela mal se mexeu com a porção de abacate. Ah, mas na cabeça a história foi outra: a luteína do suplemento mal e mal conseguiu entrar no cérebro, enquanto o abacate parece ter multiplicado por quatro a quantidade dessa molécula na massa cinzenta.

Talvez você se pergunte como os cientistas sabem que a luteína da fruta ganhou passe livre para atuar nos neurônios do cérebro e melhorar seu funcionamento. Simples e fascinante: por meio de um equipamento que lembra aqueles de exames no oftalmologista, é possível mensurar a quantidade de luteína na mácula, a área central da retina, no fundo dos olhos. E o fundo dos olhos, fique sabendo, é uma espécie de extensão do seu cérebro, dedurando o que está ali dentro. Não à toa, quando os voluntários que comeram abacate repetiram os testes de memória, apresentaram uma incrível melhora no resultado em comparação com os demais. Assim como aumentaram, e muito, a capacidade de resolver diversos problemas.

A suspeita agora é a seguinte: o abacate, diferentemente de outras fontes de luteína, também aumenta as taxas de HDL, o colesterol bom. E esse colesterol bom ajudaria o pigmento a passar pela barreira que a nossa massa cinzenta tem para não deixar qualquer coisa invadir seu território. “Com as pessoas vivendo cada vez mais, descobrir alimentos acessíveis capazes de brecar o declínio da mente com o tempo é fundamental”, resume Elizabeth Johnson. Pra refrescar a memória, se você ainda não está comendo abacate, a porção é de 100 gramas diários. Lúcia Helena de Oliveira, diretamente de Boston para quem segue SAÚDE aqui, no Face. E não deixe de acompanhar mais novidades do maior evento mundial da Nutrição em nosso site, logo mais.

Fonte: revista Saúde

 

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