BACTÉRIA NO ESTÔMAGO PODE OCASIONAR ALERGIAS E COCEIRA

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Urticária e Helicobacter Pylori – informação preciosa para médicos
por Nelson Guimarães Proença*O Século XIX foi o século da Microbiologia. O uso do microscópio permitiu a muitos pesquisadores – Koch e Hansen, entre tantos outros – fazerem suas magistrais descobertas, assegurando a associação de seus nomes à História da Medicina. No Século XX foi habitual dizer que não havia muito mais a fazer, neste campo.
Mas uma grande surpresa, uma grande conquista, estavam ainda reservadas, tornando-se conhecidas somente em 1983. Foi nesse ano que dois pesquisadores ingleses publicaram seus trabalhos relacionados com uma bactéria presente no estômago e que parecia ser a causadora da úlcera estômago e do duodeno. Entrava agora em cena o Helicobacter pylori. Tratando-se a bactéria, obtinha-se a cura da doença ulcerosa. Foi um extraordinário avanço! A pesquisa dirigiu-se então para saber quais medicamentos seriam mais eficazes, para eliminar a bactéria de modo definitivo. Logo foi encontrada a combinação ideal de medicamentos, uma tripla associação, entre amoxicilina, claritromicina e omeprazol. De eficácia indiscutível e já consagrada.

Com o passar dos anos percebeu-se que Helicobacter pylori estava também relacionado com outras doenças, além das gastrites e das úlceras gastroduodenais. Seu papel foi demonstrado, por exemplo, nos linfomas que se iniciam no estômago. Mas houve um fato curioso, observado por vários pesquisadores. Foi o seguinte: quando um paciente com úlcera gástrica apresentava simultaneamente urticária crônica, e fazia o tratamento tríplice, obtinha-se a cura de ambas as doenças. Mera coincidência? Não parecia ser, pois não foi apenas um trabalho publicado, mas sim vários, entre os anos de 1994 e 2001.

Sabe-se que são várias as causas de urticária crônica, mas entre elas não estava incluída a presença de Helicobacter pylori no estômago. Estas várias outras causas são sempre pesquisadas pelo médico assistente. Em muitos casos, porém, chegamos a “um beco sem saída”, não conseguindo saber qual a causa da urticária. A nova descoberta merecia ser melhor estudada. Foi isto o que fez um grupo de pesquisadores do hospital universitário de Caracas (Venezuela) e seus resultados foram publicados no final de 2007 (*).

Vejamos o que aconteceu com 60 pacientes com urticária crônica que foram consecutivamente atendidos nesse hospital universitário. Em 44 deles (nada menos do que 73%) o exame específico (teste da urease) foi positivo para o Helicobacter pylori, muito embora apenas parte desses pacientes tivesse queixa gástrica. Nos 16 restantes (27%) o exame laboratorial foi negativo. Todos foram submetidos ao tratamento triplo, e o que aconteceu?
Nos 44 pacientes, com exame positivo, houve eliminação do Helicobacter pylori. Simultaneamente, conseguiu-se a cura completa da urticária crônica em 32 casos (73%) e significativa melhora em oito (18%), com apenas quatro fracassos terapêuticos. Nos 16 pacientes em que o teste era negativo também foi feito o tratamento triplo e somente dois (12%) tiveram remissão; os demais 14 (88%) não obtiveram qualquer melhoria clínica.

Estes resultados confirmam os trabalhos anteriores, os quais indicavam que a presença de Helicobacter pylori no estômago poderia estar associada à urticária crônica. E ainda mais, que quando esta presença for confirmada, deve-se fazer o tratamento específico. Eis ai uma informação preciosa para médicos e pacientes que já está sendo incorporada à prática clínica.

Nota: Nelson Guimarães Proença é Professor Emérito de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
(*) Marcano-Lozada e colaboradores – Medicina Cutânea, Vol. 35:130 -135, 2007.
http://www2.uol.com.br/jornaldecampos/766/saude.htm

 

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